5. COMPORTAMENTO 24.4.13

1. A OMISSO DO ITAMARATY
2. ELES DEFENDEM A DESCRIMINALIZAO DAS DROGAS
3. O BRASIL EST SEGURO?
4. UMA NOVA FACE DO TERROR: MORTAL E BARATO

1. A OMISSO DO ITAMARATY
Com o trabalho de um novo advogado, a situao dos corintianos presos h dois meses na Bolvia pode comear a mudar. Isso comprova a inoperncia da nossa diplomacia
Rodrigo Cardoso

Os 12 brasileiros presos desde 20 de fevereiro em Oruro, na Bolvia, acusados da morte do jovem boliviano Kevin Espada, atingido por um sinalizador na partida entre San Jos e Corinthians, tiveram um sopro de esperana na quarta-feira 17. Em uma inspeo realizada no estdio Jess Bermdez, palco da partida, eles, enfim, viram a dvida ser plantada na mente das autoridades bolivianas que apuram o caso. Pode-se dizer que a investigao s comeou agora, dois meses depois, porque a embaixada brasileira no colaborou com seus conterrneos desde o incio do caso, afirma o advogado Srgio Marques, que, como integrante da nova defesa dos brasileiros, se mudou para Oruro h 20 dias para tentar pr fim  lentido na apurao dos fatos.

O RETORNO - Brasileiros chegam ao estdio da tragdia, na Bolvia, sob forte escolta, para uma inspeo: recomeo da investigao
 
Na inspeo no Jess Bermdez, quando os fatos foram apresentados no local, Marques defendeu as hipteses de que o artefato que atingiu Espada pode no ter sido o lanado pelo menor H. A. M., autor confesso do disparo do sinalizador. Segundo o advogado , o jovem boliviano pode ter sido morto antes do incio da partida. Se essas teses forem plausveis  isso ser divulgado nesta semana , poder ficar mais evidente que os 12 brasileiros foram vtimas de uma armadilha engendrada pelas autoridades bolivianas. E, pior, sucumbiram a ela pela falta de assistncia diplomtica brasileira na Bolvia. Levados  delegacia e l interrogados, os torcedores assinaram seus depoimentos sem contar com o auxlio de um tradutor. Reclamam, desde o incio, que muitas informaes que constam do documento no foram ditas por eles. Outro fato que d esperanas aos presos  a vinda ao Pas de um promotor boliviano para ouvir o adolescente H.A.M., o que foi acertado durante a visita do ministro da Justia Jos Eduardo Cardozo  Bolvia, na semana passada.
 
A inspeo no estdio demorou dois meses para acontecer. Graas a ela, passou a constar em ata que cinco dos 12 brasileiros disseram no estar nem sequer dentro do Jess Bermdez quando o sinalizador foi lanado. Mas essa e outras informaes, que podem abalar a convico das autoridades bolivianas sobre a culpa dos detidos, poderiam continuar desconhecidas, porque, de acordo com os advogados de defesa, a embaixada brasileira queria que o exame no estdio fosse cancelado. Falei com o ministro Eduardo Saboia, da embaixada, depois de conseguir reverter o quadro. Ele me disse que estava cumprindo ordens superiores. Que histria  essa?, diz Marques. As coisas agora esto andando porque esse servio sujo, poltico, cheio de interesses pessoais da embaixada no est mais no comando.

A embaixada, situada em La Paz, nega que tenha pedido cancelamento da inspeo e argumenta que nenhum diplomata esteve na delegacia, porque o governo boliviano no avisou a chancelaria brasileira. O ministro Saboia afirma ainda que chegou a comprar colches para os torcedores e que foi at o presdio, certa vez, para retirar seis dos 12 presos que se encontravam cumprindo um castigo no calabouo. Marques, o advogado dos brasileiros, entrou com uma medida cautelar na Corte Interamericana de Direitos Humanos, requerendo a soltura dos seus clientes. Algo que at agora no havia sido feito pelos diplomatas brasileiros.


2. ELES DEFENDEM A DESCRIMINALIZAO DAS DROGAS
Surpreendendo a sociedade, sete ex-ministros da Justia entregam manifesto ao STF no qual explicam por que o usurio no deve ir para a cadeia, mas especialistas alertam para o perigo de facilitar o acesso s substncias ilcitas
Nathalia Ziemkiewcz e Suzana Borin

O movimento Viva Rio colheu assinaturas de sete ex-ministros da Justia, dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Incio Lula da Silva. Todos so favorveis  descriminalizao das drogas: Tarso Genro, Mrcio Thomaz Bastos, Nelson Jobim, Jos Gregori, Aloysio Nunes Ferreira, Jos Carlos Dias e Miguel Reale Jr. Eles acreditam que tirar o usurio de entorpecentes do mbito penal, como fizeram outros pases, trar uma poltica mais efetiva de combate ao narcotrfico e ao tratamento da dependncia. Na semana passada, a carta foi entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), que j estava com o debate em relao  maconha na pauta deste semestre. Com o posicionamento de juristas desse porte, plantou-se novamente a polmica.
 
Os ex-ministros argumentam que a poltica de represso no reduziu os ndices de violncia ou a quantidade de usurios. Para eles,  preciso mudar o eixo da questo, tratando o usurio, no do ponto de vista da segurana, mas da sade pblica. Miram-se no exemplo de pases como Portugal, em que a priso de infratores foi substituda por oferta de tratamento mdico (leia na pg. 62). Assim, os investimentos e esforos policiais focariam apenas no combate aos traficantes. Mais do que isso, eles afirmam que no se pode tolher o direito individual. Da mesma forma que beber ou fumar so escolhas pessoais, a despeito dos malefcios  sade ou  sociedade, injetar herona ou cheirar cocana tambm so. A rigor, defende o atual governador Tarso Genro (RS), quem consome droga na intimidade de seu lar no faz mal a ningum.

No Brasil, a discusso se d em terreno pantanoso. Nossa legislao no tipifica quantidades de drogas para classificar algum como usurio ou traficante. Fica a critrio do policial que fez a abordagem e do juiz, de acordo com os antecedentes do detido e as circunstncias do flagrante. Se uma pessoa  pega com pequena quantidade no pode ser presa, mas ter sua ficha criminal suja. Na prtica, o que acontece: o pobre  tido como traficante e segue para a cadeia; a classe mdia e alta, como usuria, diz Paulo Gadelha, presidente da Fiocruz e da Comisso Brasileira sobre Drogas e Democracia, que encabea a campanha Lei de Drogas:  Preciso Mudar. O movimento reclama que essa indefinio tcnica transformou milhares de usurios em presidirios. Uma lgica que abarrota ainda mais o sistema penitencirio do Pas. Dados recentes do conta de que um tero da populao carcerria est presa por trfico de drogas.
 
Do outro lado, os crticos dos ex-ministros rebatem que o direito individual no pode estar acima do direito coletivo. O uso de entorpecentes est ligado a diversos episdios de violncia e dramas familiares. Transtornos mentais decorrentes do uso de drogas so a segunda causa de internaes em hospitais pblicos psiquitricos. A aposta  de que a descriminalizao facilitaria o acesso s substncias ilcitas, uma vez que 75% da populao j experimentou bebida alcolica, enquanto apenas 9% fumou maconha, segundo a Secretaria Nacional de Polticas sobre Drogas (Senad). Alm disso, afirma o mdico Ronaldo Laranjeiras, da Unidade de Pesquisa em lcool e Drogas da Universidade Federal de So Paulo, suprimir o status de crime levaria aos mais jovens a ideia de que consumir drogas no  arriscado ou perigoso.

A reforma desejada pelos projetos de lei em tramitao no Congresso, inclusive, assume seu carter contraditrio, pois permite o uso das drogas, mas probe a venda. Como liberar a demanda restringindo a oferta? Parece ingnuo, sob essa tica, acreditar que a medida liquidaria com a produo e a distribuio das drogas  tambm relacionadas ao trfico de armas e  corrupo policial. Esses ex-ministros se omitiram criminosamente quando ocuparam o cargo e no investiram em programas e tratamentos para dependentes, diz Laranjeiras. Para o mdico, no  preciso abdicar do controle penal sobre o usurio para aprimorar a rede de sade e preveno ou endurecer contra o trfico. Pronto para ser votado pelo plenrio da Cmara, o projeto do deputado Osmar Terra (PMDB-RS) defende aumentar a pena para traficantes, a possibilidade de internao involuntria de usurios a pedido da famlia e a iseno fiscal s empresas que empregarem dependentes qumicos em recuperao.

Outro ponto contra a opinio dos ex-ministros e entidades: replicar modelos que funcionaram em outros pases no significa vislumbrar um futuro bem-sucedido por aqui. O juiz Lus Gustavo Barbosa de Oliveira, da 3 vara de entorpecentes do Distrito Federal, vai mais longe e se baseia em estatsticas para discordar dos ex-ministros. Diz que apenas 5% da populao  usuria de drogas, segundo a Secretaria Nacional de Polticas sobre Drogas; e 76% dos brasileiros apoiam a proibio ao consumo, de acordo com uma pesquisa do Datafolha. Governo e entidades tm se mobilizado para assegurar a prevalncia do interesse de uma inexpressiva minoria em detrimento do bem-estar da grande maioria, afirma Oliveira.


3. O BRASIL EST SEGURO?
Como o Pas est se preparando para garantir a segurana nos quatro grandes eventos que ir sediar a partir de junho 
Michel Alecrim, Wilson Aquino, Cludio Dantas Sequeira e Joo Loes

 ESPERA DO PAPA - Policiais do Bope fazem operao de treinamento ttico para a Jornada Mundial da Juventude no Cristo Redentor, que pode ser visitado por Francisco
 
O ataque terrorista na Maratona de Boston, nos Estados Unidos, na semana passada, fez acender a luz amarela no Brasil. Embora o Pas no faa parte da rota do terror, os grandes eventos internacionais que acontecero aqui nos prximos anos iro atrair para as cidades brasileiras dezenas de autoridades e milhares de jornalistas e cidados de diferentes naes. Em junho, Rio de Janeiro, Braslia, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Fortaleza recebero jogos da Copa das Confederaes e, no ms seguinte, o Rio ser palco da Jornada Mundial da Juventude, com a presena do papa Francisco. Sero eventos-teste para a Copa do Mundo de 2014, que incluir outras seis capitais, e, dois anos depois, para os Jogos Olmpicos, majoritariamente sediados na capital fluminense. Quanto mais visibilidade, maior a comoo diante de tragdias  e  isso que os terroristas buscam. Por isso, as autoridades esto se preparando para todo tipo de emergncia. O governo federal investir, em parceria com os 12 Estados-sede da Copa e a iniciativa privada, mais de R$ 2 bilhes em segurana. Ao todo, sero cerca de 142 mil policiais de todas as esferas em ruas e em pontos estratgicos.
 
Horas depois das exploses em Boston, enquanto as autoridades americanas ainda tentavam entender o que havia acontecido, o ministro-chefe do Gabinete de Segurana Institucional (GSI), general Jos Elito Siqueira, convocou uma reunio com assessores militares e da Agncia Brasileira de Inteligncia (Abin) para avaliar o caso. Pouco antes, ele havia recebido um recado da presidenta Dilma Rousseff para dar ateno especial ao episdio e verificar a necessidade de rever a estratgia de segurana dos grandes eventos. Uma das concluses  que  preciso maior integrao entre as foras envolvidas na proteo dos cidados. Em Braslia, cidade de abertura da Copa das Confederaes, em 15 de junho, o comit local de organizao montou uma espcie de gabinete de emergncia, com representantes das polcias Civil, Militar e Federal e da polcia do Exrcito. Sem integrao, perdemos agilidade no atendimento s demandas, diz Severo Augusto, coronel da reserva e membro do Frum Brasileiro de Segurana Pblica.

O aparato que est sendo montado  grande. Dos R$ 2 bilhes investidos, metade ser empregada na instalao de centros de comando e controle. Sero 14 bases, duas de abrangncia nacional  em Braslia e no Rio de Janeiro  e as outras regionais. Cada centro ser dotado de dezenas de monitores que processaro imagens de centenas de cmeras espalhadas dentro e fora dos estdios. Esses centros sero operados por agentes das polcias Civil, Militar, Rodoviria e Federal e por rgos da Defesa Civil. Na Copa das Confederaes, as seis cidades-sede tero, cada uma, em torno de trs mil militares e, juntas, 25 mil agentes de segurana pblica. Durante a Jornada,  o Rio ter o reforo de 8,5 mil homens das Foras Armadas e de 4,5 mil policiais das trs esferas de governo. E na Copa do Mundo os nmeros so ainda mais expressivos: 36 mil militares e 50 mil agentes de segurana. A questo  que falta treinamento. So poucas as oportunidades de se realizar uma ampla simulao com todos os envolvidos. Um evento-teste aconteceu um dia antes da tragdia de Boston, no jogo Fortaleza x Cear, no Castelo. Foram destacados, para a operao, 665 policiais militares, dois delegados, 15 policiais civis e 40 bombeiros, alm de 240 guardas municipais. No Carnaval, o Ministrio da Sade realizou ensaios no Recife e em Salvador. O objetivo foi avaliar a capacidade de planejamento, execuo, resposta e avaliao das situaes de emergncia relativas  sade em grandes aglomeraes. 

O secretrio-extraordinrio de Segurana para Grandes Eventos do governo federal, delegado Valdinho Caetano, afirma que o Brasil est dotado de tecnologia de ponta para proteo contra grandes atos terroristas ou aes domsticas. O aparato inclui cmeras especiais que identificam uma nica pessoa no meio da multido e que estaro disponveis at em helicpteros.  uma filosofia indita no Pas, de planejamento conjunto e de tomadas de deciso conjuntas, explica Caetano. H investimentos tambm em cursos no Exterior. Integrantes do Esquadro Antibombas do Rio esto sendo treinados em pases como Colmbia, Israel e Espanha a fim de aprender tcnicas de elite para desativar carros-bombas. Oficiais espanhis vieram ao Brasil dar cursos de treinamento de controle de massa, no ms passado. Em maio, militares sero enviados ao Centro de Treinamento da Guarda Costeira dos EUA, em Yorktown, no Estado da Virgnia, para um curso de Controle e Comando de Crises.

A missa campal que ser celebrada pelo papa Francisco ir reunir a maior aglomerao de todos os eventos: so esperados 2,5 milhes de catlicos no dia 28 de julho, em Guaratiba, zona oeste do Rio. Um grande esquema est sendo preparado. Haver trs hospitais de campanha (dois das Foras Armadas), 14 postos mdicos, dez aeronaves e mais de mil bombeiros. Nosso planejamento est acima de qualquer ameaa, at terrorismo. Mas sabemos que  difcil prevenir; nem os Estados Unidos conseguem, diz o general Jos Alberto Abreu, responsvel pela coordenao das Foras Armadas na Jornada e na Copa. No caso de o papa visitar o Cristo Redentor, o que ainda no foi definido pelo Vaticano, o Batalho de Operaes Especiais da PM (Bope) j se preparou com um treinamento recente junto  esttua. 

As Foras Armadas devero complementar a atuao da Segurana Pblica nessas ocasies. Estamos trabalhando as reas de controle aeroespacial, martimo e fluvial, alm da defesa ciberntica, com a criao de um centro de controle em Braslia, diz o coordenador do Ministrio da Defesa para Grandes Eventos, general Jamil Megid Jnior. O risco maior dos ataques cibernticos  a derrubada do sistema de comunicao por hackers, como foi tentado, sem sucesso, durante a Rio+20, a Conferncia das Naes Unidas sobre Desenvolvimento Sustentvel, no ano passado. No Rio, tropas militares vo tomar conta da gua para evitar sabotagem ou contaminao que possa prejudicar o abastecimento. Outros pontos estratgicos, como torres de transmisso de energia, refinarias de petrleo, usinas nucleares de Angra dos Reis, portos e aeroportos, tambm sero vigiados pelas Foras Armadas.

Na semana passada, o governo federal anunciou um plano para o setor areo. A Copa das Confederaes ser o primeiro grande teste do conjunto de medidas que, entre outras coisas, amplia o nmero de servidores pblicos que atuam nos aeroportos em 1.723 funcionrios, restringe o espao areo sobre os grandes eventos em um raio de at sete quilmetros e refora a infraestrutura eltrica que serve os aeroportos. Um acrscimo no nmero de policiais federais nos principais terminais do Pas  de 313 para 1.153  tambm  esperado, bem como a expanso no nmero de operadores aeroporturios, que hoje  de 1.023 e passar a ser de 1.537. Ainda h dvidas, no entanto, sobre a capacidade do governo de colocar todas essas medidas em prtica a tempo.
 
No caso da defesa area, o monitoramento ser feito com veculos areos no tripulados (Vant), os drones. A Aeronutica j tem dois em operao e espera ter mais dois disponveis j para a Copa das Confederaes. Assim como a Fora Area Brasileira (FAB), o Exrcito prev o uso de equipamentos de ltima gerao para defesa dos estdios, inclusive baterias antiareas e modernos equipamentos de comunicao criptografada e 34 carros de combate Gepard alemes, comprados recentemente, capazes de derrubar msseis, avies comuns, helicpteros e avies no tripulados.

O ataque de Boston, porm, chama a ateno para a necessidade de aprimoramento contra os artefatos artesanais. J h algumas prticas que so adotadas, como lacrar os bueiros, lixeiras e caixas de correio 48 horas antes. Como muitos explosivos so detonados por aparelhos celulares, h tambm o uso de misturadores de frequncia que impedem a transmisso dos sinais, explica Renato da Silva, consultor de segurana pblica de grandes eventos. Dados do Esquadro Antibomba da polcia fluminense a que ISTO teve acesso revelam um nmero extraordinrio de bombas caseiras apreendidas no Rio: 3.016, desde 2009, sem contar os artefatos que no foram destrudos pelo esquadro. A maioria  de fabricao domstica, mas tambm so encontrados rojes com capacidade para derrubar avies, desviados de quartis ou contrabandeados por traficantes de drogas.  o Estado que tem mais ocorrncias com explosivos. Pernambuco, por exemplo, arrecadou dois ou trs no ano passado, comparou um tcnico.

Como o terror tem um alto grau de imprevisibilidade, as aes de inteligncia so fundamentais.  necessria cooperao internacional para o Pas saber quais so os potenciais terroristas que podem desembarcar aqui, alm de um sistema protegido e eficiente de comunicao interna para troca de dados. A preveno do terrorismo depende de informao, resume o capito de mar e guerra Jos Alberto Cunha Couto, que foi do Gabinete de Segurana Institucional da Presidncia,  especializado em antiterror e participou das discusses para a elaborao de um projeto de lei para tipificar o crime. Alis, a inexistncia de uma legislao no Brasil que mencione o crime de terrorismo  um problema, na avaliao de especialistas. Hoje, se um sujeito estiver diante do Palcio do Planalto fazendo desenhos da estrutura, for perguntado por um policial o que ele est fazendo e responder: Planejando um ataque terrorista, o policial no pode prend-lo, diz Fernando Fainzilber, assessor de segurana da Federao Israelita do Estado de So Paulo. A menos que ele esteja com uma arma sem registro ou carregando explosivos. A nica possibilidade  remota   tentar enquadr-lo na Lei de Segurana Nacional. Esse  o grande calcanhar de aquiles na nossa poltica antiterrorismo, complementa o capito Couto. 

 preciso ainda integrar os cidados comuns na luta contra o terror. Por exemplo: treinar os chamados first responders (em ingls, algo como quem v primeiro), ou seja, o gari, o porteiro, o guarda municipal. No  glamouroso, mas o esquema antiterrorismo precisa deles, diz o coronel Severo Augusto. Afinal, foi um vendedor ambulante que percebeu algo estranho no furgo prestes a explodir na Times Square, em 2011. Graas ao aviso dele no houve uma grande tragdia no corao turstico de Nova York. Temos que transformar o cidado em um elo do sistema que garante a sua prpria segurana, como j acontece na Inglaterra e nos Estados Unidos, diz Vincius Cavalcante, diretor da Associao Brasileira dos Profissionais de Segurana no Rio de Janeiro.

Numa guerra em potencial na qual no se conhece o inimigo, o desafio  cercar todas as brechas possveis. O cientista poltico especializado em terrorismo Graham T. Allison, da John F. Kennedy School of Government na Universidade Harvard, faz um alerta para os brasileiros: O primeiro passo a ser tomado pelos rgos de defesa e inteligncia  imaginar o inimaginvel. E explica: Antes do 11 de setembro, a ideia de que algum podia usar avies como msseis para derrubar o World Trade Center, nos Estados Unidos, parecia inconcebvel. No faltam avisos. O ltimo veio de Boston.


4. UMA NOVA FACE DO TERROR: MORTAL E BARATO
As bombas rudimentares, de fabricao caseira, e os extremistas aparentemente integrados ao cotidiano dos EUA, sem conexo com redes internacionais, alertam para a disseminao de um terrorismo difuso que assusta o mundo
Mariana Queiroz Barboza

Aos 78 anos, com 45 corridas de longa distncia no currculo, trs delas em Boston, o americano Bill Iffrig  um maratonista experimentado. Nunca, no entanto, suas pernas haviam fraquejado to prximo da linha de chegada como na segunda-feira 15, Dia do Patriota nos Estados Unidos. Faltavam menos de cinco metros da Boylston Street para o fim da prova e Iffrig estava orgulhoso de seu tempo. Foi quando ele sentiu o corpo tremer, atingido pelas ondas de choque da exploso de uma bomba. Iffrig viu as pernas sem controle e precisou se apoiar no cho, enquanto uma nuvem de fumaa envolvia tudo ao seu redor. A imagem do veterano atleta abatido, com sua camiseta laranja e short preto, socorrido por policiais que pareciam bailar a sua frente, se tornaria um emblema do primeiro atentado terrorista ocorrido nos EUA desde o fatdico 11 de setembro de 2001. Sem ferimentos, Iffrig  um homem de sorte. Perto do local de sua queda, estavam mortos Martin Richard, um menino de 8 anos, Krystle Campbell, 29 anos, gerente de um restaurante, e a estudante chinesa Lu Lingzi, 23 anos. Outras 179 pessoas sofriam e sangravam em meio  destruio provocada pelas duas bombas que explodiram quase simultaneamente na Boylston Street.

EXTREMISTAS - Os irmos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev foram identificados como responsveis pelo atentado na Maratona de Boston
 
Foi um novo tipo de terror que abalou os Estados Unidos. Um terror ao mesmo tempo vulgar e alarmante. Seus autores no precisaram de grandes ferramentas, tecnologias sofisticadas, componentes de difcil acesso ou explosivos contrabandeados para preparar seus artefatos mortais. Os terroristas apenas foram s compras. Como qualquer cidado, sem chamar a ateno de ningum. Utilizaram panelas de presso, pregos, roldanas e todo lixo metlico que pudesse ferir, como estilhaos de granada. O detonador rudimentar, montado em latas de energticos e acionado por telefone celular, e um explosivo, que tem fabricao detalhada pela internet, completavam a engenhoca. Bomba simplria, para ser usada por qualquer mente doentia. O horror banalizado, de varejo, e por isso mesmo ainda mais difcil de controlar, desafia os avanos da ltima dcada, que permitiram o monitoramento de redes do terror internacional e da compra de explosivos e materiais suspeitos. No  mais necessrio sair do pas para se radicalizar, diz Steve Emerson, diretor-executivo do Investigative Project on Terrorism, um dos maiores bancos de dados sobre grupos terroristas do mundo.  Ele lembra que h trs anos circula na internet um artigo em ingls da revista Inspire (ligada  Al-Qaeda), intitulado Faa uma bomba na cozinha de sua me. A construo de um artefato explosivo caseiro  mostrada passo a passo. Esse tipo de bomba j vinha sendo usado para atacar soldados americanos no Afeganisto, mas num ambiente civil, onde no h uniformes de proteo, seu poder  ainda mais letal.
 
Na quinta-feira 18 o mundo comeou a conhecer os rostos dos homens que carregaram a bomba de panela de presso em Boston. O FBI divulgou as imagens de dois rapazes comuns, vestindo jaquetas de moletom escuras, bons de beisebol e mochilas nas costas. Algum a fora conhece esses indivduos, afirmou o agente especial responsvel pelo escritrio da polcia federal em Boston, Richard DesLauriers. Eram os irmos Tsarnaev, russos nascidos na regio da Chechnia.  Tamerlan, 26 anos, e Dzhokhar, 19, se mudaram com os pais para Cambridge, nos Estados Unidos, h cerca de uma dcada. Tamerlan estudava engenharia no Bunker Hill Community College e praticava boxe. Dzhokhar estava registrado na Universidade de Massachusets  Dartmouth (UMD) e foi um atleta popular durante o ensino mdio. Um anjo, segundo definiu o pai, Anzor.  imprensa americana, os vizinhos de Dzhokhar repetiram verses de que nada em seu carter ou conduta poderia sugerir um comportamento terrorista. Descrito como bom funcionrio, que sempre aparecia no horrio, Dzhokhar trabalhou como salva-vidas na piscina da Universidade Harvard, segundo a rede CNN. Ele morava num dos dormitrios da UMD  e era ativo nas redes sociais. Em seu perfil numa rede russa, Dzhokhar classifica sua viso de mundo como islmica, sua prioridade pessoal como carreira e dinheiro e admitiu que apoia a causa da libertao da Chechnia. Na conta do Twitter atribuda a ele, publicou na tera-feira 16, s 10h43 da noite: Eu sou o tipo de cara livre de estresse.

VETERANO - Bill Iffrig, maratonista de 78 anos, se apoiou no cho da Boylston Street quando o impacto das bombas fez suas pernas tremerem
 
Ao canal de tev CBS, um tio dos irmos Tsarnaev disse que a ao de seus sobrinhos causara vergonha  sua famlia e a toda a comunidade chechena. Outro tio contou que Tamerlan havia ligado para ele aps o atentado pedindo perdo. A tia Maret Tsarnaev questionou, em entrevista ao jornal Toronto Sun: Por que raios eles fariam isso? A resposta completa ainda est longe de ser esclarecida, mas j tem uma forte pista: Seria surpreendente se no houvesse um elemento islmico nesta histria, disse  ISTO Anatol Lieven, pesquisador da New America Foundation, em Washington. Lieven, que  autor de vrios livros sobre a antiga Unio Sovitica, lembra que o Taleban est na Chechnia desde os anos 90, embora sua influncia na regio hoje no seja muito ampla. H, contudo, muitos relatos de chechenos que viajaram ao Afeganisto e participaram de ataques a alvos americanos, afirma. A Chechnia  atualmente uma das repblicas da Federao da Rssia e fez parte da Unio Sovitica at seu desmantelamento. Desde ento, luta por sua independncia por meio de conflitos armados. Ao menos trs grupos chechenos esto includos na lista terrorista dos EUA.

Logo que comearam as investigaes sobre o atentado, a polcia pediu aos milhares de pessoas que estiveram no local da maratona que contribussem com pistas, fotos e vdeos registrados em seus smartphones. Na era das redes sociais, em poucas horas, mais de duas mil pistas j tinham sido entregues s autoridades. Quando o FBI divulgou a imagem dos suspeitos, tambm colocou no ar o site bostonmarathontips.com, com um formulrio simples por onde deveriam ser enviadas as informaes sobre os suspeitos e uma linha de telefone foi disponibilizada. Durante a noite, a polcia foi chamada pelo roubo a uma loja de convenincia prxima ao Massachusetts Institute of Technology. Surpreendentemente, os ladres eram os irmos Tsarnaev, que fugiram em direo  universidade, trocando tiros com seguranas. Na fuga, Tamerlan e Dzhokhar roubaram um SUV Mercedes-Benz que acabou sendo localizado pela polcia. Comeou, ento, uma perseguio cinematogrfica. No subrbio de Boston, em Watertown, os irmos jogaram explosivos e atiraram contra os policiais, matando um deles e ferindo outros. No tiroteio, Tamerlan morreu. Junto a seu corpo, foram encontrados mais artefatos explosivos. Dzhokhar fugiu e, at o fechamento desta edio, ainda no havia sido capturado. Acho que  justo dizer que, durante toda esta semana, estivemos num confronto direto com o mal, disse o secretrio de Estado, John Kerry.
 
O medo difuso do mal a que se refere Kerry assustou os Estados Unidos desde o incio da semana. No fim da tarde da segunda-feira 15, a regio da Times Square, a mais turstica de Nova York, j se mostrava mais frentica do que de costume. A sensao era de que todos queriam voltar para casa o quanto antes. Qualquer transeunte usando capuz e mochila atraa os olhares. Tudo piorou nos dias seguintes, quando se soube que, em Washington, duas cartas envenenadas foram enviadas  Casa Branca e ao senador Roger Wicker. O suspeito de ter encaminhado os envelopes, Paul Kevin Curtis, 45 anos, foi preso em sua casa no Mississippi na quarta-feira 18, e qualquer relao dele com o atentado foi descartada. Curtis, que tem histrico de problemas mentais,  acreditava ter descoberto uma conspirao sobre a venda de partes humanas no mercado negro.

BOSTON - Sitiada Policiais isolam reana caada aos suspeitos. Moradores foram orientados a no sair de casa
 
Em Boston, onde logo depois do atentado 12 quarteires foram isolados pela percia, turistas e moradores tiveram que deixar seus hotis e casas  alguns nem mesmo puderam recolher seus documentos. Com o avano das investigaes, a volta para casa foi autorizada aos poucos, mediante a revista de bolsas e mochilas. Ao mesmo tempo, as feridas da cidade atingida foram sendo cicatrizadas por demonstraes pblicas de solidariedade. Crianas entregaram flores brancas para maratonistas pedindo que voltassem  corrida do ano que vem e uma loja do Starbucks distribuiu cafs e donuts gratuitamente. Um fundo criado para ajudar as vtimas da tragdia levantou mais de US$ 7 milhes em apenas 24 horas. Na quinta-feira 18, durante ato ecumnico em memria das vtimas na Catedral de Santa Cruz de Boston, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou: Ns vamos terminar a corrida. No podemos deixar algo como isso nos parar. Na sexta-feira 19, enquanto Dzhokhar ainda era perseguido, a polcia de Boston pedia para ningum sair de casa e paralisou todo o sistema de transporte pblico. Era como se Boston estivesse sitiada.
 
Num pas rescaldado pelos atentados de 11 de Setembro, Boston mostrou que estava preparada para atender as vtimas e que pode ser um exemplo para o mundo. Quatro dias aps o ocorrido, a expectativa realista era de que todos os feridos resgatados com vida sobreviveriam, embora alguns ainda permanecessem internados em estado grave. Quando as bombas explodiram, os seguranas do evento esportivo evacuaram o local com rapidez, desviando o caminho dos corredores para a Commonwealth Avenue e abrindo espao para o atendimento s vtimas. Numa tenda mdica montada para eventuais emergncias da maratona (basicamente, atletas com mal-estar e desidratao), pessoas feridas foram classificadas conforme seu estado de sade e encaminhadas a oito hospitais da regio em questo de minutos. Segundo o relato do cirurgio Atul Gawande, do Brigham and Womens Hospital de Boston,  revista New Yorker, a mobilizao comeou logo que apareceram as primeiras notcias na tev e foram espalhadas entre os mdicos e enfermeiros por mensagens de texto, Twitter e aplicativos para smartphones. As equipes de atendimento dobraram, enquanto leitos eram esvaziados. Praticamente todos os hospitais tm profissionais com experincia em campos de batalha, no Iraque ou no Afeganisto, e em desastres traumticos, como o terremoto no Haiti.

Juliette Kayyem, ex-assessora de Obama no Departamento de Segurana Nacional e colunista do jornal Boston Globe, disse que a mesma estratgia de pedir ajuda ao pblico foi usada para identificar os autores dos atentados ao metr de Londres em 2005. A tecnologia faz parte inevitvel das perseguies, escreveu no Twitter. A internet oferece uma quantidade absurda de informaes, mas tambm facilita o trabalho de rastrear essas atividades e encontrar suspeitos, disse  ISTO Brooke Rogers, professora de risco e terror do departamento de estudos de guerra do Kings College, de Londres. As duas especialistas concordam que o terrorismo internacional est hoje menos organizado do que costumava ser. As redes como a Al-Qaeda tiveram que mudar sua estrutura drasticamente no s pela morte de seus principais lderes, mas para evitar novas prises, afirmou Rogers. O que tambm mudou no mundo ps-11 de Setembro  que as pessoas esto conscientes de que o terrorismo  uma ameaa real e h muito pouco a fazer para evit-lo.

